«Terás visto o mar?» — João Pina transforma um arquivo de família em memória coletiva do Tarrafal

Lisboa, 28 de Outubro de 2026 – Uma caixa de sapatos com centenas de negativos, cartas censuradas e fotografias de um passado marcado pela repressão está na origem de uma exposição que cruza história, memória familiar e criação artística. No Museu Nacional de Arte Contemporânea, em Lisboa, João Pina revisita o campo de concentração do Tarrafal e devolve visibilidade às histórias de quem ali esteve preso. Há perguntas que atravessam gerações e guardam, em poucas palavras, a dimensão de uma história inteira. «Terás visto o mar?» é uma delas. De acordo com a RTP foi a escrita numa carta por um bisavô ao filho, Guilherme da Costa Carvalho, preso político no campo de concentração do Tarrafal, em Cabo Verde, a pergunta dá título à exposição de João Pina, fotojornalista e professor de fotografia na Universidade do Utah, nos Estados Unidos. Inaugurada a 22 de Outubro de 2026, no Museu Nacional de Arte Contemporânea (MNAC), no Chiado, em Lisboa, a mostra recupera um arquivo familiar para construir uma reflexão sobre a repressão política, os laços afetivos e a importância de preservar a memória histórica. O projeto nasceu em 2019, quando João Pina abriu uma caixa de sapatos onde encontrou cerca de 800 negativos fotográficos, acompanhados por cartas e outros documentos guardados pelos bisavós. As imagens tinham sido feitas durante as visitas a Guilherme da Costa Carvalho, avô do fotógrafo, que esteve preso no Tarrafal entre 1949 e 1951. Aquilo que começara como um registo familiar revelou-se um testemunho visual de enorme valor histórico, capaz de aproximar o público da experiência dos presos políticos e das famílias que, do outro lado do mar, procuravam manter vivos os laços com os seus entes queridos. A descoberta deu origem a um processo prolongado de investigação, recolha de testemunhos e experimentação artística, que culminou na publicação do livro Tarrafal, em 2024, e chega agora ao espaço expositivo. Mais do que apresentar fotografias antigas, João Pina propõe um diálogo entre os negativos encontrados, as suas próprias imagens, a correspondência familiar e diferentes formas de expressão visual. O resultado é uma narrativa que parte da intimidade de uma família para abordar uma história coletiva de perseguição, resistência e privação da liberdade. Um museu que guarda outras memórias A escolha do espaço expositivo acrescenta uma dimensão particular à mostra. Instalado no antigo edifício do Governo Civil, na Rua Capelo, o MNAC ocupa um lugar cuja história inclui divisões que foram celas e que, posteriormente, serviram como gabinetes e escritórios. Hoje transformadas em salas de exposição, essas divisões acolhem parte das imagens e documentos de Terás visto o mar? Memórias do Tarrafal, criando uma relação simbólica entre o espaço, a história da repressão e a necessidade de interrogar o passado. O percurso estende-se pelas salas e pelo corredor principal, onde as imagens se articulam com documentos, objetos e materiais audiovisuais. Com curadoria de Emília Tavares, a exposição reúne cerca de 250 imagens e inclui três filmes, testemunhos, desenhos, experiências de pintura e serigrafias. Organizada em nove núcleos, oferece diferentes perspetivas sobre o arquivo, cruzando a dimensão documental da fotografia com a interpretação artística e a memória afetiva. A diversidade de materiais permite compreender que a história não se constrói apenas a partir de grandes acontecimentos políticos ou de documentos oficiais. Também se encontra nas imagens guardadas durante décadas, nas cartas trocadas em condições difíceis e nos pequenos gestos que revelam a persistência dos afetos em contextos de violência. Um dos momentos mais marcantes do percurso recupera as fotografias da bisavó do artista, Herculana da Costa Dias Carvalho, durante uma visita ao cemitério do Tarrafal. Nas imagens, a mulher deposita flores e faz vénias junto de cada uma das 32 campas de presos políticos portugueses que morreram no campo. A sequência transforma o ato de recordar numa forma de homenagem e resistência, dando rosto e dimensão humana a uma história que não pode ser reduzida a números ou datas. O mar como símbolo de distância e liberdade A pergunta que dá nome à exposição é também a chave emocional do projeto. Apesar de o campo estar situado perto do oceano, os prisioneiros viviam sob um regime de isolamento que limitava o seu contacto com o exterior. O mar, tão próximo fisicamente, permanecia distante na experiência quotidiana dos detidos, tornando-se símbolo de uma liberdade que lhes era negada. Nas cartas trocadas entre Guilherme e o pai, a pergunta sobre o mar traduz a preocupação de quem tenta imaginar as condições de vida de um familiar encarcerado. A correspondência era sujeita à censura e obedecia a regras rigorosas. Segundo João Pina, o objetivo era enviar aproximadamente uma carta por dia útil, num total de cerca de 20 por mês. Contudo, os documentos podiam seguir em conjunto, conforme a disponibilidade dos barcos, e o tempo entre o envio de uma carta e a chegada da respetiva resposta rondava, por estimativa do fotógrafo, os dois meses. A distância não era, por isso, apenas geográfica. Era também burocrática e emocional: cada mensagem dependia da autorização das autoridades e de uma cadeia de procedimentos que prolongava a espera e a incerteza. Ainda assim, as cartas mantinham aberta uma ligação entre o interior do campo e o mundo exterior. A correspondência revela uma relação familiar marcada pela preocupação mútua, mesmo numa situação de profunda vulnerabilidade. A pergunta do bisavô não era apenas uma tentativa de compreender o quotidiano do filho; era também uma maneira de lhe fazer chegar a presença e o cuidado de quem permanecia longe. É nessa dimensão íntima que a exposição encontra uma das suas forças: mostrar como, mesmo sob a repressão, os afetos continuavam a resistir. Tarrafal: um capítulo incontornável da história portuguesa A história pessoal de Guilherme da Costa Carvalho inscreve-se num dos episódios mais sombrios da ditadura portuguesa. Criado por decreto-lei em 23 de Abril de 1936, por decisão do regime de António de Oliveira Salazar, o Campo de Concentração do Tarrafal começou a receber presos políticos a 29 de Outubro desse ano, na localidade de Chão Bom, na ilha