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Editor: Celso Soares | Director : Paulo A. Monteiro

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ITÁLIA REFORÇA PRESENÇA ESTRATÉGICA EM ÁFRICA ENQUANTO ESPANHA E MARROCOS AVAÇAM COM TUNEL FERROVIÁRIO

Europa 17 Novembro 2025 – A política externa europeia volta a centrar-se no continente africano, com Itália a consolidar o Plano Mattei como instrumento estruturante para o desenvolvimento, a segurança energética e a gestão dos fluxos migratórios e os governos de Marrocos e Espanha a avançar com túnel ferroviário entre os dois países.

O Governo italiano confirmou o envolvimento de 14 países africanos, inserindo o programa numa agenda mais ampla de projeção económica e estabilização regional. A primeira-ministra Giorgia Meloni classificou o plano como uma iniciativa “sistémica”, apoiada por mecanismos financeiros que combinam mais de 1.000 milhões de euros de investimento direto italiano com cerca de 1.200 milhões de euros canalizados através do Global Gateway da União Europeia.

Relevância geoeconómica e impacto nos fluxos migratórios

Para os decisores europeus, o Plano Mattei funciona simultaneamente como instrumento de política económica externa e de diplomacia migratória. A aposta de Itália passa pela criação de incentivos económicos locais capazes de reduzir a vulnerabilidade das populações a redes de tráfico e rotas migratórias irregulares. Ao centrar-se em setores com forte potencial de geração de emprego — como agricultura, logística, energia e tecnologia — o plano procura intervir nas determinantes estruturais da migração.

O Corredor de Infraestruturas de Lobito é uma peça-chave desta estratégia: além de conectar mercados africanos entre si, a ligação aos portos atlânticos reforça o acesso europeu a matérias-primas críticas, designadamente minerais estratégicos para a transição energética. A extensão do cabo digital Blue-Raman contribui, por sua vez, para a integração de África Oriental na economia digital global, reforçando a conectividade entre Europa, Médio Oriente e Ásia.

A criação, em Roma, de um Centro de Inteligência Artificial para o Desenvolvimento Sustentável coloca Itália numa posição de intermediação tecnológica, capaz de atrair startups africanas e canalizar inovação para setores como agricultura de precisão, gestão hídrica e monitorização ambiental — áreas diretamente relacionadas com resiliência socioeconómica e mitigação de fatores de pressão migratória.

Sincronização europeia e expectativas para a Cimeira UE–UA

A próxima Cimeira União Europeia–União Africana, a realizar-se em Angola, deverá clarificar o alinhamento entre o Plano Mattei, o Global Gateway e os instrumentos de financiamento externo da UE. Para analistas de política externa, a capacidade europeia de coordenar agendas será determinante para reforçar a credibilidade e a eficácia das iniciativas no terreno.

Túnel Espanha–Marrocos: corredor físico estratégico entre Europa e África ganha novo impulso

Em paralelo, a Península Ibérica prepara um avanço de grande relevância geopolítica: a construção de um túnel ferroviário sob o Estreito de Gibraltar, capaz de estabelecer a primeira ligação física direta entre Europa e África. O estudo de viabilidade encomendado pelo Governo espanhol à empresa alemã Herrenknecht concluiu que, apesar das fortes limitações geológicas, o projeto é tecnicamente exequível.

Para especialistas em infraestruturas estratégicas, o túnel tem potencial para transformar fluxos comerciais e logísticos em toda a bacia do Mediterrâneo. O Governo espanhol estuda modelos de monetização que incluem concessões operacionais, exploração ferroviária de carga e passageiros, e o uso da estrutura para interconexões energéticas e cabos de telecomunicações, ampliando o valor económico do investimento.

No plano diplomático, o projeto reforça a cooperação entre Espanha e Marrocos, duas potências regionais com interesses convergentes em energia, mobilidade e controlo migratório. As duas capitais pretendem apresentar avanços até 2030, embora a maioria dos analistas situe o início concreto da construção após 2035, devido ao volume financeiro e aos desafios técnicos.

A comparação entre o Plano Mattei, liderado por Itália, e o projeto do túnel ferroviário entre Espanha e Marrocos evidencia duas abordagens distintas, embora complementares, da Europa na sua relação com África, cada uma com impacto próprio nas áreas da economia, política externa e migração.

O Plano Mattei constitui uma iniciativa estruturante de política económica externa, assente na cooperação multissetorial com 14 países africanos e orientada para o desenvolvimento sustentável, a energia, a agricultura, a conectividade digital e a inovação tecnológica. Trata-se de um instrumento de diplomacia económica e migratória, concebido para intervir nas causas profundas dos fluxos migratórios, criando condições de estabilidade, emprego e diversificação produtiva em países de origem e trânsito.

A reabilitação do Corredor de Lobito, a extensão do cabo Blue-Raman e o centro de Inteligência Artificial em Roma demonstram uma aposta clara em cadeias de valor estratégicas e na inserção de África no espaço digital e logístico global, reforçando simultaneamente o acesso europeu a recursos críticos num contexto de competição geoeconómica internacional.

Em contraste, o túnel Espanha–Marrocos representa uma abordagem infraestrutural de grande escala, destinada a estabelecer a primeira ligação física permanente entre Europa e África. Embora não tenha como foco principal a redução das pressões migratórias, o projeto possui implicações relevantes para a integração logística, energética e tecnológica entre os dois continentes.

O estudo de viabilidade que confirma a exequibilidade técnica da obra coloca a Península Ibérica numa posição privilegiada para se afirmar como porta de entrada euro-africana, com potencial para reconfigurar rotas comerciais, reforçar cadeias de abastecimento e abrir novos corredores ferroviários de mercadorias e passageiros.

Ao incluir possibilidades de interconexões elétricas, fibra ótica e serviços logísticos, o túnel assume-se também como uma futura plataforma estratégica para energia e telecomunicações.

Enquanto o Plano Mattei projeta influência política e económica através do investimento, cooperação institucional e diplomacia migratória, o túnel Espanha–Marrocos projeta integração territorial e geopolítica através da engenharia e da conectividade física.

O primeiro atua sobre determinantes estruturais da migração; o segundo exige novos mecanismos de coordenação fronteiriça, mas não altera de imediato os fatores socioeconómicos que alimentam os fluxos migratórios. Do ponto de vista temporal, o Plano Mattei tem efeitos esperados no médio prazo, dependentes da estabilidade africana e da articulação entre Roma, Bruxelas e os países parceiros; já o túnel possui um horizonte mais longo, com avanços significativos apenas após 2035.

No conjunto, estes dois projetos ilustram a diversificação da estratégia europeia para África: por um lado, a aposta no desenvolvimento, na digitalização e na criação de valor local; por outro, o reforço das infraestruturas que aproximam fisicamente os dois continentes.

Embora distintos na natureza e nos instrumentos, ambos contribuem para reposicionar a Europa no relacionamento com África, tanto do ponto de vista económico como geopolítico, e revelam a crescente importância do continente africano na política externa europeia nas próximas décadas.

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