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Editor: Celso Soares | Director : Paulo A. Monteiro

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UNESCO classifica roças de São Tomé e Príncipe como Património Mundial

Paris, 26 de Julho de 2026 (Lusa) – A UNESCO inscreveu este domingo as roças de São Tomé e Príncipe na Lista do Património Mundial, reconhecendo o seu valor universal excecional como testemunho de um dos mais importantes sistemas agroindustriais coloniais portugueses. A decisão assinala a primeira inscrição do arquipélago na prestigiada lista da organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura.

A decisão foi adotada durante a 48.ª sessão do Comité do Património Mundial da UNESCO, que destacou as roças como uma paisagem cultural de relevância histórica internacional, representativa da organização económica, social e territorial da produção de café e, sobretudo, de cacau entre o final do século XIX e meados do século XX.

Na fundamentação da inscrição, a UNESCO considera que as roças constituem um sistema colonial dedicado principalmente à produção de café e cacau, integrando terras agrícolas, infraestruturas industriais, áreas residenciais e equipamentos sociais. A organização sublinha ainda que este conjunto patrimonial ilustra o funcionamento de um sistema agroindustrial colonial em grande escala, baseado na migração de trabalhadores e em regimes de trabalho forçado, concebido para assegurar a produção de matérias-primas após a abolição formal da escravatura.

Muito mais do que explorações agrícolas, as roças funcionavam como unidades económicas praticamente autossuficientes. O seu complexo integrava plantações, fábricas de transformação, oficinas, armazéns, habitações para administradores e trabalhadores, bem como hospitais, escolas, igrejas e outros equipamentos comunitários. A sua organização espacial e arquitetónica constitui hoje um dos mais expressivos legados materiais do período colonial português em África.

A candidatura das roças à Lista do Património Mundial foi preparada ao longo de vários anos pelas autoridades santomenses, com o apoio de especialistas nacionais e internacionais em conservação do património. O processo envolveu um vasto trabalho de inventariação, investigação histórica e documentação, culminando na elaboração de um dossiê que demonstrou o valor universal excecional deste conjunto patrimonial e definiu um plano de gestão e conservação de acordo com os critérios da Convenção do Património Mundial.

O reconhecimento agora alcançado representa o culminar desse processo e reforça o compromisso de São Tomé e Príncipe com a preservação de um património que testemunha, simultaneamente, a prosperidade económica gerada pela produção do café e do cacau e as profundas desigualdades sociais inerentes ao modelo colonial. A classificação obriga igualmente o Estado a assegurar a proteção, conservação e valorização das roças, promovendo a investigação científica, a educação patrimonial e a participação das comunidades locais na gestão deste legado.

Para São Tomé e Príncipe, esta inscrição representa um marco histórico. Além de reforçar a projeção internacional do país, o estatuto de Património Mundial poderá impulsionar o turismo cultural sustentável, facilitar o acesso a programas internacionais de cooperação para a conservação do património e contribuir para a dinamização económica das comunidades ligadas às antigas roças.

A decisão da UNESCO reconhece, assim, não apenas a singularidade arquitetónica e paisagística das roças, mas também o seu profundo significado histórico enquanto lugares de memória. Estes espaços preservam as marcas de um modelo de produção que moldou a identidade económica e social do arquipélago e constituem hoje um testemunho da complexa herança do colonialismo, da mobilidade laboral e das transformações que marcaram São Tomé e Príncipe entre os séculos XIX e XX.

Com esta decisão, São Tomé e Príncipe passa a integrar a Lista do Património Mundial da UNESCO, criada em 1972 para identificar e proteger bens culturais e naturais de valor universal excecional. A lista inclui atualmente mais de 1.200 sítios distribuídos por cerca de 170 países, considerados património de importância para toda a Humanidade.

Uma resposta

  1. Foi com alegria que recebi esta notícia, cujo conteúdo marca o reconhecimento do valor deste património histórico, cultural e arquitectónico, umbilicalmente ligado ao período colonial das ilhas de S. Tomé e Príncipe, especialmente na suas vertentes económica e social ligadas às roças produtoras de cacau e de café.
    De imediato me lembrei do excelente romance “Equador”, do escritor e jornalista Miguel de Sousa Tavares, que tão bem retrata, no início do século XX, as assimetrias sociais decorrentes do sistema colonial, enredadas numa teia de relações de poder de onde ressalta a conflitualidade delas emergentes e os dilemas de consciência de algumas das personagens face à desumanidade quanto à forma como os trabalhadores das roças eram tratados, já após a abolição da escravatura.

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