Por Celso Soares Editor
O futuro do jornalismo português esteve em destaque nas comemorações do Dia Nacional da Imprensa, durante um encontro que colocou a sustentabilidade económica, a inovação tecnológica e a independência editorial no centro do debate. O Palacete Gomes Freire, em Lisboa, acolheu a iniciativa promovida pela Associação Portuguesa de Imprensa (API), subordinada ao tema «Confiança, Inovação e Sustentabilidade no Jornalismo». O encontro ficou também marcado pela reflexão em torno da aprovação parlamentar do Plano de Ação para a Comunicação Social, considerado um passo importante para o reforço do setor e para a preservação da qualidade democrática.
A sessão de abertura esteve a cargo de Cláudia Maia, presidente da Direção da Associação Portuguesa de Imprensa (API), que identificou um dos principais desafios dos órgãos de comunicação social: mais do que a falta de talento ou de credibilidade profissional, o setor enfrenta dificuldades estruturais de natureza económica.
Foto à esquerda: Presidente da API Cláudia Maia, na sessão de abertura.


A diversidade, o pluralismo e a qualidade da informação dependem, em larga medida, da existência de modelos de negócio sustentáveis e de infraestruturas tecnológicas capazes de responder às exigências atuais.
A Presidente API anunciou ainda atribuição ao grupo Impresa do título de membro honorário e o lançamento em 2027 do prémio de inovação na imprensa API Francisco Pinto Balsemão, em homenagem ao fundador do Expresso.
Francisco Pedro Balsemão CEO do grupo Impresa no uso da palavra
A jornalista Carla Ascensão moderou o debate, articulando as preocupações relacionadas com a realidade nacional com uma perspetiva mais abrangente sobre a evolução do mercado internacional dos media.
Sustentabilidade dos media: diferentes perspetivas, um desafio comum
As intervenções dos participantes evidenciaram a necessidade de encontrar soluções que conciliem a independência editorial, a viabilidade económica e a transformação digital.
Ricardo Costa, da SIC, colocou uma questão central: como garantir a sobrevivência do jornalismo num contexto de crescente pressão económica e competitividade digital? Na sua perspetiva, a sustentabilidade financeira é essencial para proteger a independência editorial e assegurar condições para um jornalismo de investigação rigoroso, num momento em que a credibilidade dos media enfrenta desafios significativos.
Carlos Rodrigues, da Medialivre, chamou a atenção para as restrições publicitárias aplicáveis aos órgãos de comunicação social tradicionais, considerando-as desajustadas à realidade atual. Defendeu uma revisão do enquadramento regulamentar, de modo a promover uma concorrência mais equilibrada entre os media e as grandes plataformas tecnológicas. Referiu ainda os custos associados aos serviços da Agência Lusa, defendendo uma reavaliação dos encargos suportados pelos grupos de comunicação social.
James Hewes, da Soho Consulting, apresentou uma perspetiva internacional sobre a transformação dos modelos de negócio. Destacou a importância da diferenciação, da valorização da curadoria jornalística e da criação de modelos digitais robustos, capazes de reduzir a dependência da publicidade tradicional. Num ambiente marcado pela crescente influência dos algoritmos, a capacidade de oferecer informação credível e de valor acrescentado assume particular relevância.
Nuno Francisco, do Jornal do Fundão, destacou os desafios específicos da imprensa regional. Sublinhou que o jornalismo de proximidade desempenha um papel essencial no combate à desertificação informativa, sobretudo nos territórios do Interior. Para garantir a sustentabilidade destes órgãos, defendeu mecanismos de financiamento transparentes, assentes em critérios objetivos e independentes de decisões discricionárias das autarquias, bem como melhores condições para a produção e distribuição de conteúdos.
Apesar das diferentes perspetivas, as intervenções convergiram num ponto fundamental: a sobrevivência do jornalismo exige condições económicas equilibradas, capacidade de adaptação tecnológica e mecanismos que protejam a independência editorial.
Modernização tecnológica: uma condição para a competitividade
A transformação digital constitui um dos principais desafios das redações portuguesas. Um território sem jornalismo local, independente e tecnologicamente preparado fica mais vulnerável à desinformação e à perda de diversidade informativa.
Neste contexto, a modernização dos equipamentos e das infraestruturas assume particular importância. Num mercado cada vez mais influenciado pela inteligência artificial, pelos algoritmos e pela circulação global de dados, a manutenção de sistemas desatualizados limita a capacidade de inovação e reduz a competitividade dos órgãos de comunicação social.
O Plano de Ação para a Comunicação Social procura responder a algumas destas dificuldades, contemplando medidas de apoio à modernização tecnológica. O objetivo é dotar os meios de comunicação, incluindo os exclusivamente digitais, de melhores condições para acompanhar a evolução do setor, reforçar a sua autonomia e responder às exigências de um público cada vez mais habituado a consumir informação através de diferentes plataformas.
O ministro da Presidência, António Leitão Amaro destacou a importância desta transformação, associando a atualização tecnológica à sustentabilidade e à independência dos órgãos de comunicação social.
Na perspetiva apresentada durante o encontro, a modernização deverá permitir aos media acompanhar a evolução tecnológica sem ficarem excessivamente dependentes das grandes plataformas internacionais, reforçando a sua capacidade de produzir, distribuir e valorizar conteúdos próprios.
O governante, referiu ainda uma dotação de aproximadamente 1,4 milhões de euros para o Regime de Incentivos do Estado à Comunicação Social (RIECS). Entre as medidas em destaque encontram-se a divulgação, através da imprensa regional, de deliberações e editais municipais, bem como a definição de critérios objetivos para a determinação dos respetivos preços.
Estas medidas procuram reforçar a transparência na relação entre as autarquias e os órgãos de comunicação social, reduzindo a margem para decisões discricionárias e promovendo uma distribuição mais equitativa dos recursos. A sua eficácia dependerá, contudo, da aplicação consistente das regras e da capacidade de assegurar procedimentos claros e acessíveis aos diferentes intervenientes.
A modernização tecnológica não deve, por isso, ser entendida apenas como uma questão de aquisição de equipamentos. Trata-se de criar condições para que os órgãos de comunicação social possam inovar, desenvolver competências, melhorar os seus processos de trabalho e preservar a autonomia editorial num ambiente digital em constante mudança.
O legado do jornalismo e a responsabilidade perante o futuro
O encerramento do encontro ficou marcado pela homenagem ao jornalista Joaquim Letria, numa evocação que associou a memória do jornalismo português aos desafios da sua renovação. A referência ao legado de Francisco Pinto Balsemão, recordado pelo filho, Francisco Pedro Balsemão, reforçou a importância da independência editorial e da sustentabilidade económica como pilares de uma comunicação social livre.
A ideia central é clara: os modelos de negócio e as ferramentas tecnológicas podem transformar-se, mas a responsabilidade do jornalismo perante a sociedade permanece. A independência dos órgãos de comunicação social depende da sua capacidade de garantir recursos próprios, preservar a identidade editorial e resistir a pressões políticas, económicas ou tecnológicas.
Esta exigência é particularmente relevante para a imprensa regional, que aproxima as comunidades da informação e dá visibilidade a realidades frequentemente afastadas dos grandes centros de decisão. O seu contributo para a coesão territorial, a integração e o pluralismo cultural torna indispensável a criação de condições que favoreçam a continuidade e a qualidade do jornalismo de proximidade.
A dimensão humana da profissão continua igualmente a ser insubstituível. Ouvir as pessoas, compreender os contextos locais, questionar o poder e procurar respostas fundamentadas são práticas essenciais para distinguir o trabalho jornalístico da mera circulação de conteúdos. Num ambiente digital marcado pela rapidez, pela repetição e pela competição pela atenção do público, a capacidade de verificar factos, contextualizar acontecimentos e explicar realidades complexas torna-se ainda mais importante.
O Plano de Ação para a Comunicação Social representa, neste contexto, uma oportunidade para enfrentar algumas das fragilidades estruturais do setor. Contudo, a eficácia das medidas dependerá da sua execução, da transparência na atribuição dos apoios e da capacidade dos próprios órgãos de comunicação social para desenvolver modelos sustentáveis e acompanhar a evolução tecnológica.
O futuro dos media portugueses — dos grandes grupos nacionais à imprensa regional, passando pelas rádios locais e pelas plataformas digitais — não pode assentar exclusivamente no apoio público. Exige também inovação, qualificação profissional, diversificação das receitas e uma aposta contínua na relevância dos conteúdos produzidos.
O caminho passa, assim, por conciliar a modernização tecnológica com a responsabilidade editorial, a sustentabilidade económica com a independência e a inovação com a proximidade às comunidades. Só desta forma será possível consolidar uma comunicação social plural, credível e preparada para responder às necessidades de uma sociedade democrática, informada e inclusiva.



